Bullying, qualquer um pode sofrer com ele





Muitas coisas estavam pra ser reveladas. Características pra esse perfil que tenho hoje. Respostas pras inúmeras críticas que venho sofrente nos últimos anos. Críticas aceitáveis claro, afinal nunca fui uma pessoa fácil de lidar.
Decidi fazer essas revelações, pois foi esse o tempo que eu tive pra poder realmente me conhecer e aceitar algumas coisas a meu respeito. Pois foi como um grande amigo me disse hoje, sou uma montanha russa de sentimentos. Enquanto em alguns momentos estou me sentindo o cara mais feliz do mundo, outros me sinto a pessoa mais ridícula e fria.

Vamos lá, desde o começo.
Tive uma infância, até os 10 anos de idade, como a maioria dos jovens da cidade de São Paulo. Nasci no bairro do Morumbi, mas morei durante esse período no bairro do Campo Limpo.
Não tinha na cidade grande a tal "liberdade" que possuo hoje morando no interior. Talvez por isso tenha me privado de tantas coisas que outras pessoas da minha idade tenham vivenciado morando aqui em Campo Limpo Pta.
Meu primeiro contato real com uma bola de futebol, jogando entre amigos, foi aos 11 anos já morando por aqui. Vivia 24 horas por dia, na incessante rotina de escola, casa, TV.
Com quase 11 anos, me mudei pro interior, e minha rotina mudou completamente.
Estava eu, longe de todos os meus amigos de infância, dos meus familiares que me criaram desde cedo, pois quem cuidava de mim era minha vó no período onde meus pais estavam no trabalho, e estava numa cidade onde pra cada lado que eu olhava, era mais um desconhecido que eu via.
Com o passar do tempo fui aceitando as coisas. Fazendo novas amizades, ou melhor, conquistando irmãos. No entanto aquele meu perfil de pessoa tímida, e quieta, por nunca ter tido contato com tanta gente diferente, me tornava muito diferente dos meus amigos que aqui moram. Fui até mesmo, considerado Gay por esse perfil.

Os anos foram se passando e mudei pro Elza.
O medo era gigantesco, escola maior, mais pessoas, novos professores, e a incerteza de ficar longe dos poucos amigos que tinha era muito maior.
O primeiro ano na escola até que foi tranquilo, por sorte meus amigos estavam comigo, e pude daquela maneira empurrando as coisas. Sempre fui destaque na sala de aula, por ser um aluno muito dedicado. Tinha as melhores notas da turma, e isso foi causando uma certa inveja nos meus colegas de classe.
Na mudança de prédio, eu que já estava mais acostumado com as coisas, fui aceitando tudo numa boa, no entanto ainda muito acuado em certas situações.
Tinha caído na pior turma da escola, onde os piores alunos estavam ali "estudando" junto comigo. E foi ai que começou o meu "inferno" e vivi os piores anos da minha vida.

Tinha caído em minha sala um aluno que era considerado um dos piores da escola. Com certeza o que dava mais problema pra direção. E este, havia percebido esse meu perfil mais tímido, porém muito inteligente. E foi aí que comecei a sofrer aquilo, que hoje tenho até medo de mencionar a palavra. Bullying.

Esse garoto e mais um grupo de 3 ou 4, não estavam nem aí com nada. Mas por pertencerem a um grupo que estavam sob olhares da direção, tinham que tirar notas, e consequentemente passar de ano. Eis que o seu alvo para conquistarem isso se tornara eu.

Todos os dias, era literalmente obrigado a executar suas atividades propostas.
Quantas e quantas vezes levava seus cadernos pra casa, colocando toda a sua matéria em ordem para que no dia seguinte tivesse que ser apresentado pros professores?
Os trabalhos de casa, tinha que fazer e colocar seus nomes. Nas atividades em grupo, era obrigado a fazer junto a eles, e no fim das contas saia até mesmo prejudicado por ter de me empenhar sozinho. Afinal tinha que manter meu bom desempenho para que meus pais não desconfiassem.
Ai você vira pra mim e pergunta:
-"Por que você nunca contou pra alguém?".
E eu lhes respondo:
E o medo? Sempre que me recusara a fazer suas atividades, ou pela correria não conseguia termina-las a tempo, eu era literalmente agredido. Sempre escondido pra que ninguém vesse. Com socos, chutes. E diversas vezes fui ameaçado inclusive com objetos que poderiam me machucar mesmo. Como canivete. E sempre eram ditas as mesmas palavras. Que se eu contasse pra alguém eu iria apanhar mais ainda. Se não até mesmo me matariam.
Como que um garoto de 12 anos ia arriscar perder a vida?
O medo mais uma vez digo era constante. Eu que sempre amei estudar, só de pensar que tinha que ir pra escola todos os dias, me deixava louco. Maluco. Sem saber se ia voltar pra casa com o corpo intacto ou com algum machucado.

Os finais de semana eram os melhores dias da minha vida. Se eu pudesse ter controle do tempo, faria com que estes demorassem anos a terminar.
Nos dias que ele faltava na escola, me sentia a pessoa mais feliz do mundo.
Meus amigos foram percebendo. Sabiam que eu não era daquele jeito.
Mas negava, dizendo que estava tudo normal.

Esse "inferno" durou 1 ano e 3 meses. Até que uma professora a mencionar seu nome na chamada, dizia a toda a turma que ele tinha sido expulso da escola.
Acho que aquele foi um dos melhores dias da minha vida. Me sentia livre. Era como se minha vida voltasse a ser vivida depois de tanto tempo.

Ia pra escola animado, contente, motivado, e foi então que decidi que daquele momento em diante seria o maior orgulho da sala. Fui me destacando cada dia que passava. E minha família notara meu progresso.

Depois daquele momento, havia me tornando a cada dia, um aluno espelho na escola. Me tornei o líder da turma, e em pouco tempo já estava como o principal líder da escola.

Achei que trabalhando com o Grêmio Estudantil, poderia ajudar os demais alunos a que não passassem pela mesma situação. Temia que isso acontecesse. E sabia que se passassem, sofreria o mesmo que sofri. E não desejo o que aconteceu, nem pros meus piores inimigos. Nem mesmo pra pessoa que fez isso comigo.

O meu envolvimento e interesse pela política nos últimos anos, foi a porta que encontrei pra tentar mudar as coisas pra melhor.
Ver e saber que pessoas passam pelo mesmo que passei, é o mesmo que alimentar meu combustível por justiça e muitas vezes queria poder fazer essa justiça com as próprias mãos, arrebentando as pessoas que praticam o Bullying. Mas seria o mesmo que me tornar uma pessoa como eles. Então tenho que ser diferente.
Sou sim um cara muito sério, até mesmo demais pra pessoas da minha idade. Mas tenho que ser assim por mim mesmo, e por pessoas que amanhã ou depois podem precisar de mim. Podem me procurar se queixando passar pela mesma situação que passei. E não poder ajudar vai ser minha grande frustração.

É complicado aceitar esse meu perfil. Muitas vezes arrogante, metido, estupido, mas talvez tenha sido essa minha tecla de escape, pra que não desse liberdade pra me tratarem do mesmo jeito.

Pessoal, eu queria poder pedir a ajuda de todos pra que isso não se repita com maior frequência em nossas escolas e em nossa sociedade. Só uma pessoa que já passou por confrangimentos por ser nerd, gordo, gay, negro, magro, branco, deficiente físico ou mental sabe o que estou falando. Não achem que é fácil sair por ai contando pra todo mundo o que acontece. Até por que antes dessa postagem no meu perfil no Facebook, no máximo 5 pessoas sabiam do que aconteceu.

Vamos ficar de olho em nossos filhos, irmãos, amigos, e pessoas ao nossos redor. Qualquer coisa em comum que veja em uma dessas pessoas, procure a escola, veja o que está acontecendo, procure estar mais próximo. Por que falar por vontade própria, é algo extremamente complicado. 

Odeio e lutarei contra Bullying, e você?

G. Marques

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4 comentários:

A FILOSOFIA DA PRÁXIS disse...

Muito boa a sua postagem, Gustavo, parabéns pela coragem! Acho que a união entre os estudantes pode ajudar a diminuir esse tipo de coisas. Como você disse, se sentia isolado e se isolava do todo.Então, por que não realizar atividades com o Grêmio e os colegas e convidar esses estudantes que vocês sabem que sofrem ou podem estar sofrendo? Por exemplo, ao invés de esperar que se aproximem, aproximem-se deles, vão ao seu encontro, descubram suas capacidades e talentos! Está aí uma palavra boa "Qual o seu talento?", quem sabe algum concurso para cada um apresentar suas qualidades desconhecidas?

Betula Artesanatos disse...

Boa tarde.Parabens pela coragem de seu depoimento. Nem todos os garotos compartilham esse tipo de problema, que considero, o maior problema do século, envolvendo crianças e adolescentes. Tudo é uma questão de cultura e educação, pois se educarmos nossos filhos e netos com a visão de que ng é diferente, as coisas mudam. Lute sim, afinal vc é um vencedor.....

Gustavo Marques- Uma forma diferente de pensar a vida disse...

Muito obrigado professor.
Foi sim uma briga insessante para que eu pudesse aceitar o que de fato ocorrera comigo e colocasse isso em exposição.
Irei lutar sim, contra todos aqueles que praticam o mesmo, afinal sei o que pessoas que sofrem com Bullying, passam na pele.
O apoio das pessoas é muito importante, pois muitas vezes, as pessoas que passam por isso que passei, se sentem acuadas e com medo de chegar até alguém próximo e contar o que está acontecendo, muitas vezes por medo de represálias. Mas como foi dito por Betula Artesanatos, este tem sido um dos grandes problemas da juventude, e é contra ele que temos de lutar. Unidos.

Gustavo Marques- Uma forma diferente de pensar a vida disse...

Obrigado pelos comentários e pela visita Betula Artesanatos. Sei o quanto é difícil pra pessoas que passam por essa situação, se omitirem em relação aos fatos.
E é contra à prática do mesmo que irei lutar.

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